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Todo inox nasceu para uma aplicação

Se você acha que “inox é tudo igual”, sinto informar, mas você está vivendo um ledo engano. Acreditar nisso é o primeiro passo para ver sua peça caríssima de “aço inoxidável” ganhar sardas cor de ferrugem em menos de seis meses.

A verdade é que o aço inox não é um monobloco de perfeição imutável; é uma família grande, complexa e cheia de parentes com talentos muito específicos. Cada um nasceu com um destino traçado. Como diz um de nossos convidados no Papo de Inox: cada um nasceu para uma aplicação.

E é sobre que quero falar neste artigo.

Parece complexo –  e de fato é, quando entramos no aprofundamento técnico. Mas, quando se explica da forma certa, tudo fica perfeitamente compreensível. Veja, por exemplo, o AISI 430: ele é aquele primo trabalhador, eficiente, mas que definitivamente não gosta de praia. Trata-se de um aço ferrítico (sim, o ímã gruda nele!), excelente para aplicações como fogões, geladeiras e equipamentos de uso interno. Porém, se você o levar para morar em frente ao mar – ou mesmo para ambientes com alta umidade, vapor constante ou presença de cloretos – ele vai reclamar. E reclamar, nesse caso, significa oxidar.

Não é defeito do material, só não é a vocação dele, entende?

Mas vamos lá…

O problema começa no nome: inoxidável. A palavra passa a falsa sensação de que o material simplesmente “não enferruja”, independentemente do ambiente, da aplicação ou da forma como é utilizado. Mas a realidade é outra.

Todo aço inox pode corroer, sim, ok? O que muda é o quão resistente ele é à corrosão em determinados ambientes.

A resistência à corrosão vem, principalmente, da presença do cromo (mínimo de 10,5% para ser considerado inoxidável), que forma uma película passiva na superfície do metal. Essa película protege o aço, mas pode ser rompida, desgastada ou insuficiente dependendo de fatores como: umidade, salinidade, presença de cloretos, produtos químicos, temperatura, atrito mecânico (…), ufa!

Veja como muitos fatores influenciam a aplicação do inox!

O AISI 304 é o inox mais conhecido e mais utilizado do mundo. Pertence à família dos austeníticos, não é magnético e apresenta excelente resistência à corrosão em ambientes comuns. Isto porque se diferencia do primeiro citado anteriormente por conter níquel. É padrão em hospitais, laboratórios, entre outros ambientes mais delicados. Ele aguenta bem a umidade e a maioria dos produtos químicos. Ainda assim, mesmo com excelência em resistência, a depender da região litorânea que ele se encontrar, também não aguenta.

Para esses casos, entra o AISI 316. Ele tem um ingrediente secreto chamado molibdênio, que o torna resistente à corrosão por cloretos. Sabe aquela maresia que destrói tudo? O 316 olha para ela e diz: “Só isso?”.

Existem ainda os aços para quem gosta de cortes precisos. Os martensíticos (AISI 410 e 420) são usados para fazer facas e instrumentos cirúrgicos. Eles podem ser temperados para ficarem duros como diamante, mas, em troca, são mais temperamentais com a oxidação.

Note que estamos falando de classificações diferentes, com finalidades distintas, mas todas pertencentes a um mesmo material: o aço inoxidável. O que é o aço inox? Acesse o nosso guia completo clicando aqui.

Além disso, dentro de cada uma dessas famílias, a adição controlada de elementos de liga (titânio, nióbio) dá origem a novas variações do aço inox, cada uma desenvolvida para resolver desafios muito específicos de aplicação. Pequenas mudanças na composição química são capazes de gerar grandes diferenças de desempenho, criando literalmente soluções.

E isso sem sequer entrarmos no universo dos aços duplex, que combinam, de forma engenhosa, as melhores características dos ferríticos e dos austeníticos. Mas isso é assunto para outro artigo.

No fim das contas, a grande lição é simples: não existe inox ruim, existe inox mal especificado. Cada tipo de inox foi desenvolvido para resolver problemas muito específicos. Quando respeitamos essa vocação, ganhamos durabilidade, desempenho, segurança e economia no longo prazo. Quando ignoramos, o resultado costuma ser frustração, retrabalho e prejuízo.

Por isso, antes de escolher o inox pelo preço, pela estética ou pela disponibilidade imediata, a pergunta correta sempre deve ser: em que ambiente essa peça vai trabalhar? Se o fornecedor não perguntar isso, pelo menos o mínimo, fuja dele.

Lembre-se sempre: todo inox nasceu para uma aplicação. Escolha bem — e ele vai trabalhar por você por muitos e muitos anos.

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