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Quando o projeto foi concebido, entre 1937 e 1941, o desafio era enorme. A costa da península de Yucatán possui um relevo muito plano, o que faz com que os navios precisem avançar quilômetros mar adentro até encontrar profundidade suficiente para atracar. Por essa razão, o píer precisou ser construído com grande extensão. A estrutura original tinha cerca de 2,1 quilômetros de comprimento e posteriormente foi ampliada, tornando-se um dos píeres mais longos do mundo.
Mas o verdadeiro desafio não era apenas o tamanho da obra. Era o ambiente.
Estruturas expostas ao mar sofrem constantemente com o ataque de cloretos presentes na água salgada e na atmosfera costeira. Esse fenômeno provoca corrosão nas armaduras metálicas do concreto armado, uma das principais causas de deterioração em pontes, píeres e obras portuárias ao redor do mundo.
Para evitar esse problema, os projetistas tomaram uma decisão ousada para a época (e até para hoje): utilizar barras de aço inoxidável tipo 304 na armadura estrutural do concreto. Ao todo, cerca de 220 toneladas de aço inox foram incorporadas à estrutura para reduzir o risco de corrosão ao longo do tempo. As informações são da World Stainless Steel.

Na década de 1940, essa escolha representava um investimento maior no custo inicial da obra. Mas os engenheiros acreditavam que a durabilidade compensaria o investimento.
Décadas depois, a história mostrou que eles estavam certos. Prova disso, foi que quando pesquisadores inspecionaram a estrutura após cerca de 60 anos de serviço em ambiente marinho tropical, encontraram algo surpreendente: o píer permanecia em excelente estado estrutural, sem sinais relevantes de deterioração nas armaduras.
A inspeção incluiu medições eletroquímicas, avaliação da penetração de cloretos no concreto e análise da condição das barras metálicas.
Esse resultado chamou atenção internacional e levou a uma análise ainda mais profunda. Pesquisadores decidiram então realizar uma avaliação comparativa para responder a uma pergunta simples: o que teria acontecido se o píer tivesse sido construído com aço carbono convencional?
Como não existe outra estrutura idêntica para comparação direta, foi desenvolvido um modelo hipotético. Nesse modelo, todas as condições foram mantidas iguais alterando apenas um fator: o material das armaduras.
Esse estudo utilizou a metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (LCA) para calcular não apenas o custo inicial da construção, mas todos os custos acumulados ao longo de décadas de operação.
Embora o aço carbono tivesse um custo inicial menor, a estrutura construída com esse material exigiria intervenções frequentes ao longo do tempo. Reparos estruturais, reforços e até reconstruções parciais seriam necessários para lidar com os efeitos inevitáveis da corrosão em ambiente marinho.
Quando todos esses fatores foram considerados ao longo de um período de 79 anos, o custo total da alternativa com aço carbono acabou se tornando 44% maior do que o custo total da estrutura construída com aço inoxidável.
Esse caso se tornou um exemplo clássico do conceito de TCO (Total Cost of Ownership), ou custo total de propriedade. Em vez de avaliar apenas o investimento inicial de uma obra, o TCO considera todo o custo associado à sua operação ao longo da vida útil.
Um detalhe curioso que ajuda a entender a comparação entre materiais é que, anos depois da construção do Pier Progreso original, uma segunda estrutura menor foi erguida nas proximidades utilizando armaduras de aço carbono. Não exatamente com a ideia de fazer um comparativo, mas serviu bem para o propósito com os anos.
Apesar da proximidade e das condições praticamente idênticas, essa estrutura menor não apresentou a mesma durabilidade ao longo do tempo e acabou não resistindo da mesma forma ao ambiente costeiro. Histórias de durabilidade bastante distintas que mostrou que o estudo feito, e supracitado, estava correto.
Essa é uma pergunta que sempre aparece quando se fala do Pier Progreso. Hoje sabemos que o AISI 316, por conter molibdênio em sua composição, apresenta maior resistência à corrosão por pite e é frequentemente recomendado para aplicações em ambientes marítimos. Então por que, naquele projeto, foi utilizado o AISI 304?
A resposta está no contexto da época. Quando o píer foi projetado, entre 1937 e 1941, o conhecimento técnico sobre corrosão em estruturas de concreto armado ainda estava em evolução. O grande problema que os engenheiros buscavam resolver era a deterioração acelerada das armaduras de aço carbono, que já causava sérios danos em pontes e estruturas portuárias expostas ao ambiente marinho.
Outro fator importante é que, naquele período, o AISI 304 era o aço inox austenítico mais difundido comercialmente. O 316 ainda tinha aplicação mais limitada e custo significativamente maior.
Além disso, as barras de inox não estavam expostas diretamente à água do mar. Elas foram utilizadas como armaduras dentro do concreto, que atua como uma barreira física e química contra o ambiente externo. Mesmo com a penetração gradual de cloretos ao longo das décadas, essa proteção adicional permitiu que o inox 304 apresentasse um desempenho extremamente superior ao do aço carbono, contribuindo para a longevidade da estrutura.
O resultado é que, mais de 80 anos depois, o Pier Progreso continua sendo citado como um dos exemplos mais emblemáticos de durabilidade em estruturas marítimas e um grande trunfo do inox!

