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Essa percepção encontra respaldo nos indicadores nacionais. Em julho, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), caiu de 46,7 para 44,4 pontos, atingindo o menor nível desde junho de 2020.
O indicador permaneceu abaixo dos 50 pontos pelo 19º mês consecutivo. Pela metodologia da CNI, resultados inferiores a essa marca indicam falta de confiança. Dos 29 setores pesquisados, apenas três permaneceram confiantes: farmoquímicos e farmacêuticos; bebidas; e perfumaria, limpeza e higiene pessoal.
Na avaliação de Douglas Brito, CEO da Projinox, o mercado de aço inoxidável acompanha o desempenho de segmentos como construção civil, saúde, alimentação, infraestrutura e indústria. Quando empresas desses setores reduzem investimentos ou postergam obras e ampliações, toda a cadeia pode ser afetada.
“Nosso setor está diretamente ligado ao investimento. Quando uma empresa constrói uma unidade, amplia uma fábrica, moderniza uma cozinha ou inicia uma obra, o aço inox está presente. Se esses projetos são adiados, toda a cadeia sente os efeitos”, afirma.
Os dados reunidos no Observatório ABINOX do segundo trimestre de 2026, por exemplo, mostram que o país não enfrenta uma retração generalizada. A economia iniciou o ano com desempenho superior ao esperado e a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi revisada de 1,6% para 2%.
A produção industrial também acumulou crescimento de 1,4% entre janeiro e maio. Entretanto, os setores mais dependentes de crédito e de decisões de investimento continuam sentindo os efeitos dos juros elevados e das condições financeiras restritivas.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), o consumo aparente de máquinas e equipamentos atingiu R$ 31,1 bilhões em maio, mas permaneceu 19,5% abaixo do registrado no mesmo mês de 2025. Nos cinco primeiros meses de 2026, os investimentos no setor acumularam retração de 15%.
“Os números mostram que não estamos diante de uma paralisação completa da economia. Existem setores crescendo e projetos sendo executados. A maior dificuldade aparece nos investimentos que dependem de crédito, previsibilidade e confiança para sair do papel”, analisa Brito.
A cautela também aparece na siderurgia. O Indicador de Confiança da Indústria do Aço (ICIA), calculado pelo Instituto Aço Brasil, recuou 2,2 pontos em julho, chegando a 45,6 pontos. Foi a segunda queda consecutiva e o menor resultado desde dezembro de 2025. O movimento foi provocado principalmente pela piora das expectativas em relação aos próximos meses.
Embora o ambiente político influencie as expectativas do mercado, a desaceleração percebida no início do segundo semestre não pode ser atribuída a uma única causa. O desempenho industrial também é afetado pelos juros, pela disponibilidade de crédito, pelo câmbio, pelos custos produtivos, pela concorrência dos importados e pelo ritmo dos setores consumidores.
O cenário externo acrescenta outras incertezas, como tensões comerciais, mudanças nas tarifas de importação dos Estados Unidos, conflitos internacionais e oscilações nos preços da energia e de outros insumos.
“Não seria correto atribuir toda a situação apenas à política. Existe uma combinação de fatores econômicos, financeiros e setoriais. Entretanto, quando o ambiente político transmite instabilidade ou falta de previsibilidade, ele aumenta a insegurança e torna a tomada de decisão ainda mais difícil”, explica Douglas Brito.
Segundo o empresário, a Projinox tem percebido maior demora na aprovação de determinados projetos e uma postura mais criteriosa dos clientes. Isso não significa ausência de oportunidades, mas indica negociações mais longas e decisões de compra tomadas com maior prudência.
“O cliente continua precisando executar seus projetos, mas está avaliando cada investimento com muito mais cuidado. Em alguns casos, a necessidade existe, porém a decisão é adiada à espera de melhores condições econômicas ou de maior segurança em relação ao futuro”, acrescenta.

Diante de fatores que não podem ser controlados pelas empresas, Brito defende o fortalecimento da gestão, o aumento da produtividade, a diversificação dos mercados e a proximidade com os clientes.
“Não podemos controlar os juros, o câmbio ou o cenário político, mas podemos controlar a forma como administramos nossos negócios. Precisamos reduzir desperdícios, melhorar processos, investir em tecnologia e compreender com mais profundidade aquilo de que o cliente realmente necessita”, afirma.
Para o CEO da Projinox, períodos de menor atividade também pode ser aproveitados para revisar estratégias, qualificar equipes e preparar a empresa para uma futura retomada.
“Os momentos desafiadores obrigam a empresa a olhar com mais atenção para sua operação. É uma oportunidade para corrigir falhas, fortalecer a estrutura e estar preparada quando o mercado voltar a acelerar”, analisa.
Brito considera que a recuperação da confiança será fundamental para estimular novos investimentos. Enquanto isso, empresas com equilíbrio financeiro, capacidade de inovação e relacionamento próximo com os clientes estarão mais preparadas para enfrentar as incertezas.
“O cenário pode ser desafiador, mas a empresa não pode ficar paralisada esperando que tudo melhore. Quem continuar evoluindo durante a dificuldade estará mais preparado para crescer quando as condições se tornarem favoráveis”, conclui.
